- A Colonização de Trairi -
_por J. Lucas Jr.*
Terras indígenas e desinteressantes para
Portugal por conta das análises desfavoráveis para a presença de minerais
preciosos, “a prata”, o Ceará da Era Colonial ficou subordinado a Pernambuco
até 1799. Quaisquer tentativas de explorar a sua área passava pela outra
colônia, orientada pela Coroa, que, no intuito de povoar o Brasil, criou as
sesmarias.
Segundo
Raimundo Girão, tratavam-se de concessão pública de terras mediante pedido escrito em que o pretendente declarava o seu nome ou do
beneficiário, o lugar de sua moradia, localização geográfica da terra
solicitada e o objetivo que tinha em mente, este, em geral, na região
nordestina, visando a criação de gado.
Especificamente
sobre Trairi, as expedições de suas cartas foram feitas por capitães-mores,
destinadas aos governantes de Pernambuco e por sua vez ao rei. E isso ficou
registrado.
Conforme os
livros de Sesmarias do Ceará, sob as guardas do Arquivo Público do Estado e
publicado por historiadores como Thomaz Pompeu Sobrinho, Estêvão Vicente Guerra
foi o primeiro sesmeiro. No livro volume 2, número 103, de 12/03/1706, alegando
“riacho deserto e desaproveitado”, solicitou três léguas das terras do Rio
Trairi “a começar a água salgada para cima”. Na mesma data, no volume 6, número
421, ele complementou: “principiando onde acaba a água salgada” e “o Trairi
estava então deserto”. Ano em que a Câmara de Vereadores de São José de
Ribamar localizava-se na Barra do Ceará até 1713, quando foi transferida
para Aquiraz.
Em 20/05/1718,
José Fernandes Manuel Rabelo, alegando que morava a três léguas da barra do rio
Trairi, solicitou parte daquelas terras. Entretanto, em 04/04/1725, a viúva de
Estêvão Vicente Guerra, Maria Furtado de Mendonça, pernambucana, com 33 anos,
recebeu de concessão, conforme registra o volume 11, número 134 do livro,
“as terras que correm da água salgada para cima, até encontrar com a água doce
do rio Trairi até topar com as terras que se supõe de José Fernandes, que não
as povoou”. Duas léguas e meia, ou seja, tamanho inferior à concessão anterior
pelo seu marido, embora se suponha a mesma propriedade.
Acreditamos que,
nessa data, 4 de abril de 1725, a sesmeira assumiu a posse de imediato, tendo
em vista a falência da família após a Guerra dos Mascates, em Pernambuco e às
constantes incursões dos holandeses contra os donos de engenhos. Assim, diante
da sua devoção religiosa, católica, ergueu a Capela de Nossa Senhora do
Livramento, beirando o rio horizontalmente, muito antes da existência da atual
sede do Município. O dia em que, entendemos, marca o inicio da colonização
particular de Trairi. Há 300 anos.
Reforçando o
nosso entendimento a respeito do tricentenário, destacamos o registro, em
formato de diário, relatado ao rei D. João V, pelo experiente militar português
(e mulato) João da Maia da Gama, ex-governador da Paraíba, sobre uma jornada a
partir do Maranhão, onde chegara em 1719, exercendo a função de capitão-mor,
cortando o litoral cearense a pé com a sua comitiva, contando com cerca de cem
índios da Serra da Ibiapaba e pisando nas areias do Mundaú a 17 de fevereiro de
1728, onde tivera a ajuda dos anacé para atravessar o barra em meio às chuvas.
No dia seguinte,
seguindo no rumo de Fortaleza, à tarde, cortando caminho pelos morros, foi
traído pelo temporal que fez parte do seu comboio se perder do grupo na noite
molhada e escura. Deu-se, enfim, o encontro com a poderosa de um povoado, Maria
Furtado de Mendonça, que providenciou a procura com o devido êxito: ...viemos
dormir num sítio chamado Trairy, aonde assiste a viúva D. Maria e chegamos já
de noite e com chuva todo o dia, e se perdeu parte do comboio pela muita chuva
e escuro, e mandamos guia buscá-lo, e nesse dito sítio uma engenhoca que faz
algum açúcar, muita aguardente e tem terras bastantes para canas.
Esse interessante documento, publicado em Portugal somente em 1944, nos
dá a certeza da existência da primeira indústria trairiense, em tempos tão
longínquos, anterior ao algodão, idealizada por uma mulher que conheceu de
perto o principal agente econômico da época, na progressiva Pernambuco, onde
seu esposo era produtor de derivados da cana de açúcar. Confirma-se que ela
chegou em Trairi devidamente estruturada, com maquinário pesado, e
imediatamente posto em prática a cultura açucareira em sua nova moradia ao lado
de uma salina, certamente no ano de 1725. Assim, a rapidez do encontro da
viúva com a comitiva, que se retirou no dia seguinte, evidencia dona Maria
Furtado de Mendonça presente no dito engenho, que se localizaria entre a
Canabrava e a atual sede, à beira-rio, com a possibilidade de que ela morasse
no local ou mesmo nas proximidades da sua igreja.
Relevante sobre esse encontro histórico é que João da Maia da Gama foi
um dos confiados do Rei D. João V para interceder pelos nobres de Olinda
(fazendeiros) durante a Guerra dos Mascates (Recife e Olinda, 1710 a 1711).
Fato que, durante o seu desfecho final, em 1711, o esposo de D. Maria Furtado
faleceu. Os mascates (ricos comerciantes), queriam Recife como Vila,
independente de Olinda, chegando a comprar, em dinheiro, desertores. Aliás,
após a vitória dos mascates, o rei o repreendeu, assim como ao bispo, por
suposta traição. Sorte deles, pois D. João V reconheceu a derrota dos donos de
engenhos e foi habilidoso em evitar novos confrontos. Singular nota para
entendermos o interesse de Estêvão Vicente Guerra pelas terras de Trairi e
consequente transferência da sua família: a crise do sistema econômico da época
em Pernambuco.
Fonte: Pompeu, Sobrinho, Thomaz. Sesmarias Cearenses. Fortaleza, SEDUC,
1979.
Mais: Capítulo especial com a Vila Sonhar e o Coletivo ÚTERA, das idealizadoras Mary Pena e Karine Sousa, respectivamente.
E a notícia: nossa Vila Sonhar, receberá a Biblioteca do InsTI – Dona Chiquinha. Homenagem a Francisca Clotilde (e por que não, à minha mãe dona Francisquinha).
Francisca Clotilde -
Francisca Clotilde - Escritora e Abolicionista: Pioneira no tema “Divórcio” na literatura brasileira. participou da luta que impulsionou a abolição da escravatura no Ceará, 1º Estado brasileiro a libertar os escravos no País.https://glaucialimavoz.blogspot.com/2013/11/francisca-clotilde-escritora-e.html
Combativa, mãe e mulher, a escritora cearense Francisca Clotilde aventurou-se no século XIX a “Resistir ao invés de existir!” Dona Chiquinha, como era chamada.
“RESISTIR AO INVÉS DE EXISTIR!” Dona Chiquinha
Escritora e Abolicionista: Pioneira no tema “Divórcio” na literatura brasileira
Francisca Clotilde participou da luta que impulsionou a abolição da escravatura no Ceará, 1º Estado brasileiro a libertar os escravos no País.
Francisca Clotilde - Dona Chiquinha
https://glaucialimavoz.blogspot.com/2013/11/francisca-clotilde-escritora-e.html
Combativa, mãe e mulher, a escritora cearense Francisca Clotilde aventurou-se no século XIX a “Resistir ao invés de existir!” Dona Chiquinha, como era chamada.
Chiquinha Gonzaga - Primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. *17/10/1847 - †28/02/1935, também foi a primeira chorona, primeira pianista de choro, autora da primeira marcha carnavalesca com letra ("Ô Abre Alas", 1899).
Chiquinha Gonzaga lutou pelos direitos
autorais. É fundadora, sócia e patrona da SBAT - Sociedade Brasileira de
Autores Teatrais, ocupando a cadeira nº 1.
Chiquinha Gonzaga -