quarta-feira, 27 de setembro de 2017

#DitaduraNuncaMais

ROSE NOGUEIRA

“Os militares diziam que a tortura não passa nunca. Eles tinham razão.”

Presa 33 dias após dar à luz seu filho, Rose Nogueira foi torturada psicologicamente e abusada sexualmente, ela ainda guarda as marcas do período 


Rosemeire Nogueira é jornalista, militante e presidenta do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo. Foi presa pela ditadura militar em 4 de novembro de 1969, mesmo dia da morte de Carlos Marighella. Na época, militava na Ação Libertadora Nacional (ALN) e trabalhava no jornal Folha da Tarde.

Referência do Jornalismo Brasileiro, Rose Nogueira é militante dos direitos humanos, presa política no final dos anos 60 na mesma cela de Dilma Rousseff, editora do Jornal Nacional nos anos 80 e uma das criadoras de programas que fazem parte da história da televisão brasileira, como o Balão Mágico e a TV Mulher, na Rede Globo. Quando foi presa pela ditadura militar, Rose atuava na ALN (Aliança Libertadora Nacional), grupo revolucionário de Carlos Marighella. Com um bebê de apenas um mês de vida, sofreu todo tipo de tortura física e psicológica, como mãe e mulher. É uma história tocante.

RELATO

"Sobe depressa, Miss Brasil’, dizia o torturador enquanto me empurrava e beliscava minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os ‘40 dias’ do parto. Na sala do delegado Fleury, num papelão, uma caveira desenhada e, embaixo, as letras EM, de Esquadrão da Morte. Todos deram risada quando entrei. ‘Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca’, disse ele. Um outro: ‘Só pode ser uma vaca terrorista’. Mostrou uma página de jornal com a matéria sobre o prêmio da vaca leiteira Miss Brasil numa exposição de gado. Riram mais ainda quando ele veio para cima de mim e abriu meu vestido. Picou a página do jornal e atirou em mim. Segurei os seios, o leite escorreu. Ele ficou olhando um momento e fechou o vestido. Me virou de costas, me pegando pela cintura e começaram os beliscões nas nádegas, nas costas, com o vestido levantado. Um outro segurava meus braços, minha cabeça, me dobrando sobre a mesa. Eu chorava, gritava, e eles riam muito, gritavam palavrões. Só pararam quando viram o sangue escorrer nas minhas pernas. Aí me deram muitas palmadas e um empurrão. Passaram-se alguns dias e ‘subi’ de novo. Lá estava ele, esfregando as mãos como se me esperasse. Tirou meu vestido e novamente escondi os seios. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco. No meio desse terror, levaram-me para a carceragem, onde um enfermeiro preparava uma injeção. Lutei como podia, joguei a latinha da seringa no chão, mas um outro segurou-me e o enfermeiro aplicou a injeção na minha coxa. O torturador zombava: ‘Esse leitinho o nenê não vai ter mais’. ‘E se não melhorar, vai para o barranco, porque aqui ninguém fica doente.’ Esse foi o começo da pior parte. Passaram a ameaçar buscar meu filho. ‘Vamos quebrar a perna’, dizia um. ‘Queimar com cigarro’, dizia outro." 


Entrevista Rose Nogueira (sem edição, na íntegra) #DitaduraNuncaMais


Nenhum comentário:

Postar um comentário